Para além de liderar a Universidade Lusófona, Teresa é responsável pelas Relações Internacionais da mesma, bem como pelo Real Colégio de Portugal.
Se pensa que fica por aqui, desengane-se, porque esta senhora não para! Arranja ainda energia e dedica-se à Junta de Freguesia de Benfica, onde é Secretária da Mesa da Assembleia de Freguesia, e ainda dirige o Instituto Superior de Novas Profissões.
E porque vivemos dias em que, por Portugal, a educação também se veste em tons de amarelo e em que a realidade não é ainda igual em todos os países da lusofonia, convidámos Teresa Damásio a sentar-se à mesa do Sheraton Lobby, a tomar o pulso e fazer o diagnóstico e a prescrição à educação, ao país e à lusofonia.
O ensino e as instituições de ensino são indissociáveis da Teresa. Está a educação hoje na linha das competências necessárias à sociedade atual ou nem por isso?
A educação tem de estar, cada vez mais, no topo das prioridades, tanto públicas, dos governos, como da vida das pessoas e das famílias. Educar, obviamente, pode ser visto de múltiplas maneiras. Temos a educação formal, temos a escolaridade obrigatória. Depois, temos as competências técnicas e profissionais que adquirimos desta escolaridade, temos as competências pessoais, temos as nossas competências interpessoais, temos as nossas competências artísticas, temos as nossas competências sociais, que são absolutamente fundamentais, também através da educação informal e da educação ao longo da vida e da formação. Portanto, educar, obviamente, é muito mais do que os 12 anos de escolaridade obrigatória. É importante que se eduque cada vez mais cedo. Portanto, a educação obrigatória deverá começar em Portugal, como já acontece na maioria dos países, aos 3 anos de idade, com um pré-escolar completo. Temos feito grandes avanços, mas ainda estamos muito longe daquilo que será admissível para um Estado moderno, pluralista, democrático, porque temos que criar em todas as pessoas a ideia de que a educação tem que ser o pilar fundamental em cada família e não deve ser vista como algo obrigatório. Não deve ser visto como algo que as pessoas daquele núcleo familiar têm obrigatoriamente que prosseguir. Não, o acesso à educação é um direito básico de qualquer ser humano, em qualquer sociedade democrática e desenvolvida.
Mas cada pessoa também tem o direito de ser feliz e a felicidade está associada, de forma permanente, ao conhecimento. E esse conhecimento assume diferentes modelos, ao longo da nossa vida biológica, societária, cultural e de todas as nossas vidas. Por isso, é que é fundamental, em contexto escolar, promover a criatividade do aluno. E, por isso, é muito estranho como é que nós queremos uma sociedade de empreendedores (e a vossa revista estimula isso nas pessoas, fala tanto sobre isso, como tive a oportunidade de ver) numa sociedade que tem tudo tabulado. Portanto, também é preciso que os poderes públicos discutam o que é isto de educar: Porque é que temos que ter um manual escolar igual para todas as escolas? Porque é que temos que ter programas? Porque é que temos que ter metas?
Quer dizer, assim não estimulamos a criatividade, a autonomia dos professores, os métodos de ensino, os métodos de investigação, as novas tecnologias, o digital no conhecimento, as fontes orais. Portanto, nós temos um longo caminho a percorrer e, por isso, trabalhar na área da educação é, de facto, um trabalho muito grato, porque todos os dias, a todos os minutos, em todas as horas, temos ganhos. Mas é muito duro quando se trabalha em sociedades onde ainda está muito por fazer. É muito curioso, por exemplo, ver nessas sociedades, onde está tudo ou quase tudo por fazer, que os responsáveis têm uma noção muito séria daquilo que querem da educação do seu país e, noutros países, onde era suposto os responsáveis deixarem os agentes trabalhar, parece que querem regredir não sei quantas décadas. Portanto, é um trabalho muito árduo, porque nunca está nada concluído.
A Lusófona é um exemplo de integração de união entre falantes do português. Que lições aprendidas partilha dos anos à frente da instituição?
Se quisesse encontrar uma palavra, um conceito, entre “tolerância”, “justiça”, “igualdade”, talvez “tolerância”, porque abarca muita coisa. Sermos tolerantes não é permitir os relapsos, nada disso. Sermos tolerantes, porque nem todas as pessoas tiveram acesso às mesmas ferramentas, metodologias, oportunidades que nós tivemos, cresceram em contextos de profunda desigualdade, enquanto nós, pelo menos por estarmos aqui na Europa, a priori, temos garantido um conjunto de direitos e liberdades básicas que não existem noutros espaços do mundo; e sermos tolerantes, porque todos têm voz, todos têm direito à concretização dos seus sonhos e porque todos têm direito a ser felizes.
É responsável pelas Relações Internacionais da Lusófona e a res publica é algo sempre presente na sua vida. Que balanço faz deste Portugal lá fora e cá dentro?
Bem, acho que os portugueses fazem um trabalho notável. Estou a falar dos cidadãos e das cidadãs que estão, anonimamente, no seu trabalho e nas suas empresas, no seu dia-a-dia. Vejo-o por todo o lado onde vou. Estive há menos de um mês no Azerbaijão, numa conferência das Nações Unidas, como speaker, onde era a única portuguesa. Mas acho que o país não sabe aproveitar a boa imagem que os outros países têm de nós, que os governantes dos outros países que querem fazer negócios com o nosso país, têm de nós. Muitas vezes não conseguem, e não é porque não haja empresários em Portugal, mas porque, efetivamente, não são criadas as condições para que os empresários portugueses possam exportar os seus produtos. Portanto, o que estas pessoas fazem é feito por elas. Fazem-no sozinhas ou com as suas empresas, com as câmaras de comércio que fazem um trabalho absolutamente excecional, anónimo, mais uma vez sem ajudas, dependente da “carolice” de quem lá está, e temos muitos exemplos. Devo dizer-lhe que Portugal tem ganho muitos prémios, temos uma excelente notoriedade que tem vindo a aumentar, mas ainda está muito por fazer. Um exemplo concreto é o Erasmus +, em que Portugal não conseguiu elevar a sua voz da mesma forma que Espanha. É uma vergonha que os países da CPLP ainda não possam entrar, enquanto todos os países da América Latina podem ser parceiros do Erasmus +.
Qual o momento mais desafiante que viveu até hoje? O que é que a vida lhe ensinou?
Bem, tenho dois momentos. Um momento foi quando a minha mãe faleceu e eu tive que tomar conta do colégio. Estávamos no fim do mês, tínhamos que pagar ordenados, estávamos no início do ano letivo e era um colégio que ela criou, muito feito à imagem dela. Tive que pegar naquilo e, portanto, tinha que o transformar no meu projeto. No fundo, foi quase começar tudo do zero. Isso foi o mais difícil, porque, humanamente, é muito difícil. Os meus filhos estudam lá e, por isso, era um colégio que estava habituada a visitar enquanto encarregada de educação. Tinha à frente a minha mãe, mas eu não tinha nada a ver com o que se passava lá dentro. De repente, passei a ter que ver com o que se passa 24 horas por dia. Depois, passei a ser responsável pelo outro colégio também, mas foi mais fácil, porque, como não tinha laços emocionais, é mais fácil gerir.
O outro momento, que não foi penoso, do ponto de vista emocional, foi quando entrei para a Assembleia da República, um mundo completamente diferente daquele a que estava habituada. É óbvio que foi uma experiência muitíssimo enriquecedora, de que eu gostei. Ganhei amigos para a vida e, claro, foi fantástico, mas muito desafiante também. Ali, a lógica é a de serviço e nós devemos, acho eu, ter sempre essa postura de serviço público. Mas, como estamos na esfera pública e na política, há outros objetivos que nós não controlamos e que não passam, nem têm que passar por nós.
Portanto, foram estes os dois momentos, de facto, desafiantes.
Outra questão complexa é como continuar a motivar as equipas num momento de crise. Esse é, de facto, o grande desafio, que passa por todos os ganhos e pelo work balance. Portanto, tudo o que se pode fazer para motivar as pessoas, de conciliação da sua vida profissional com a família, de promover a aprendizagem em mestrados, doutoramentos, isso tudo…
O que é que a vida já me ensinou? Bem, que o dia de amanhã é sempre diferente.
Por onde passam hoje os caminhos da Teresa?
Bem, passam pela minha família, obviamente, e pela educação. Hoje em dia, a políticacontinua a ser central na minha vida, na maneira como eu encaro a sociedade. Uma coisa que considero fundamental é que todos os jovens deviam participar nas juventudes partidárias, porque é uma escola muito importante. Há muitas pessoas que dizem mal das juventudes partidárias, mas penso que dizem mal porque nunca participaram. E acho que todas as pessoas deviam fazer parte de partidos políticos, pois dizem mal das máquinas partidárias porque também nunca fizeram parte delas.
Mas, de facto, a educação tem vindo a sedimentar-se na minha vida e temos que fazer opções.
Publicado no Gerir&Liderar a 07/07/2016



