O ensino profissional não é o plano B

Nov 5, 2026

A valorização do Ensino Profissional e o aumento do número dos seus diplomados que prosseguem estudos no Ensino Superior têm de constituir um imperativo nacional.
Foto Teresa sede grupo Ensinus

Quando analisamos os resultados da segunda fase de acesso ao Ensino Superior, divulgados a 29 de setembro, verificamos que mais de metade dos cerca de 20 mil candidatos ficaram sem colocação, apesar de terem permanecido 4.069 vagas por preencher, sobretudo nos Politécnicos e nas Instituições de Ensino Superior do interior do país. Esta realidade exige uma reflexão sobre a arquitetura do nosso Sistema de Ensino.

A recente reforma do RJIES – Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior – permite, através da chamada «via verde», que os Politécnicos que cumpram os requisitos de acreditação previstos possam assumir a designação de Universidades Politécnicas. Em articulação com a revisão da Lei dos Graus e Diplomas, esta alteração permite também às universidades e às universidades politécnicas ministrar os – CTeSP – Cursos Técnicos Superiores Profissionais , até aqui uma oferta exclusiva dos politécnicos.

Esta evolução representa uma oportunidade para aproximar o Ensino Superior do Ensino Profissional.

Em Portugal, os alunos do Ensino Profissional obtêm uma dupla certificação: a conclusão do ensino secundário e uma qualificação profissional inscrita no CNQ – Catálogo Nacional de Qualificações. Estão, por isso, habilitados a prosseguir estudos no Ensino Superior, nomeadamente através dos CTeSP.

Importa, contudo, questionar por que razão o número de vagas e de ingressos nestes cursos não acompanha a procura pelas licenciaturas. É objetivo dos Estados-Membros que 50% dos alunos que concluem o 9.º ano ingressem no Ensino Profissional e que 50% dos diplomados desta via prossigam estudos no Ensino Superior.

Portugal tem registado progressos na primeira meta. Segundo os dados da EDUSTAT (2026), entre 2015/16 e 2023/24, o peso dos cursos profissionais no ensino secundário aumentou de 25% para 28%. Ainda assim, continuamos abaixo da média da União Europeia. Acresce que o Ensino Profissional continua a atrair mais alunos do sexo masculino, o que reforça a necessidade de promover maior igualdade de género nas escolhas educativas.

A segunda meta permanece um desafio. Segundo um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, 76% dos alunos dos cursos científico-humanísticos prosseguem estudos no Ensino Superior, face a apenas 22% dos provenientes do Ensino Profissional. É neste contexto que a reforma do RJIES ganha particular relevância: ao alargar a diversidade de instituições disponíveis, cria novas oportunidades para os diplomados do Ensino Profissional continuarem o seu percurso académico e profissional.

O Ensino Profissional não pode continuar a ser visto como um plano B. Deve ser reconhecido como uma opção de valor, capaz de responder às necessidades do mercado de trabalho e de contribuir para a competitividade, o crescimento económico e o desenvolvimento sustentável do país.

A valorização do Ensino Profissional e o aumento do número dos seus diplomados que prosseguem estudos no Ensino Superior têm de constituir um imperativo nacional. A Constituição da República Portuguesa consagra a liberdade de ensinar e de aprender. Cabe ao legislador e aos decisores políticos criar condições para que as instituições públicas e privadas de Ensino Superior cumpram a sua missão e contribuam para o reforço e a valorização do capital humano do país.

Artigo publicado originalmente pelo ECO a 05/11/2026.

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