A escola subordinada à ditadura do currículo

Jul 7, 2025

Num mercado de trabalho cada vez mais exigente e dinâmico, as alunas e os alunos são hoje confrontados com a necessidade de desenvolver competências que ultrapassam largamente os domínios técnicos e científicos.

As chamadas soft skills hard skills deixaram de ser meros termos das conversas informais para assumirem uma centralidade incontornável nas exigências do século XXI. Este novo paradigma levanta, inevitavelmente, uma questão essencial: de que forma podem as escolas, desde os primeiros anos de escolaridade, preparar os alunos – os adultos de amanhã – para este novo mundo de competências transversais e integradas?

A forma de organização escolar é uma invenção socialmente construída que se dá no início da modernidade e que criou a separação entre o aprender e o fazer, como acontecia na época industrial, nas fábricas. A escola dá origem a uma nova forma de socialização e de criação de capital humano. Alguns autores defendem que a conceptualização da escola como a conhecemos hoje foi assumindo ao longo de anos um “carácter inelutável” (Canário, 2005, p.62) contribuindo para a estabilidade da escola e do seu currículo. Mas, o mesmo autor, que vos apresento, defende que esta criação de escola e da forma como está pensada e organizada pode condicionar a ação da comunidade educativa tirando as ferramentas e a devida autonomia de que necessita para trabalhar as competências individuais das alunas e dos alunos.

A verdade é que o ensino básico e secundário tem de estar, primeiramente, ligado ao ensino superior para que haja uma continuidade de estudos das alunas e dos alunos e, em segundo lugar, continua fortemente condicionado por um quadro legal e burocrático que limita a tão necessária flexibilidade curricular. Este entrave compromete a capacidade das escolas de se adaptarem às reais necessidades dos seus alunos, em função de uma sociedade em permanente mutação. Contudo, é importante sublinhar que flexibilização não deve ser encarada como sinónimo de menor exigência. Pelo contrário, a educação deve procurar um equilíbrio entre a exigência e a adaptabilidade, tal como procuramos na gestão equilibrada da vida pessoal e profissional, que hoje tanto falamos e sabemos o quão importante é para o nosso futuro. A escola, em todos os seus ciclos, deve também refletir esse mesmo equilíbrio.

Neste contexto, iniciativas como o Projeto de Autonomia e Flexibilidade Curricular (PAFC) (1) representaram um marco relevante na modernização da educação portuguesa. Através da possibilidade de gestão de 25% da carga horária, com a criação de Domínios de Autonomia Curricular (DAC) ou novas disciplinas, as escolas passaram a dispor de instrumentos para se tornarem mais inclusivas, inovadoras e verdadeiramente centradas no aluno. Este é o caminho que urge continuar a seguir-se, colocar o aluno no centro do Projeto Educativo. São as escolas que devem adaptar-se ao perfil dos seus alunos, e não o inverso. É imperativo que as instituições de ensino conheçam, acompanhem e definam com clareza o tipo de formação e o perfil de saída que cada aluno deve alcançar ao concluir o seu percurso naquela escola. Mas para que isso aconteça é necessário dar-lhes a flexibilização de que aqui vos falo.

Mais recentemente, o Projeto-Piloto de Inovação Pedagógica (PPIP) (2) veio reforçar esta visão. Direcionado para os cursos científicos-humanísticos e profissionais, este projeto confere uma maior autonomia curricular às escolas, focando-se nas Aprendizagens Essenciais – AE – e na criação de projetos educativos alinhados com as necessidades locais e com os recursos efetivamente disponíveis. Como refere a Direção-Geral da Educação, o objetivo passa por contribuir para uma escola mais “inclusiva, flexível, inovadora e diferenciadora”, que responda com eficácia aos desafios do mundo atual e às expectativas da comunidade educativa.

Estes projetos permitem às escolas construir uma verdadeira identidade institucional, ganhando um caráter diferenciador e pessoal. São também oportunidades para promover o desenvolvimento de competências que não se encontram suficientemente representadas nas disciplinas tradicionais, como a criatividade, a literacia digital, as competências culturais, sociais e artísticas. Através de uma abordagem mais holística, as escolas têm a oportunidade de preparar as suas alunas e alunos de forma mais completa e integrada, promovendo soluções curriculares mais diversas, inclusivas e ajustadas à realidade da sociedade do conhecimento.

Neste ponto, importa refletir sobre o que considero ser a “ditadura do currículo” — a rigidez imposta por um modelo educativo que, ao longo de décadas, tem dificultado a articulação entre disciplinas e negligenciado o desenvolvimento das competências transversais hoje tão valorizadas. Esta rigidez representa uma limitação estrutural que inibe a inovação pedagógica e compromete a preparação dos jovens para os reais desafios que enfrentamos, não conseguindo criar jovens preparados e adaptados a um futuro que está em permanente mudança.

A comunidade educativa, os docentes e os decisores políticos devem reconhecer que o que era valorizado há cinco anos já não corresponde, necessariamente, às exigências de hoje. Tal como as empresas e a sociedade evoluem, também os currículos, as metodologias e a cultura escolar têm de acompanhar essa evolução. Só assim conseguiremos garantir que as escolas deixem de ser estruturas estáticas e se tornem espaços vivos de criação de Capital Humano, fundamentais ao desenvolvimento socioeconómico do país.

É, pois, urgente libertar a escola da rigidez curricular e permitir-lhe respirar com a flexibilidade que a realidade exige passando de um paradigma de ensinar para o de aprender.

1) https://www.dge.mec.pt/autonomia-e-flexibilidade-curricular
2) https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/despacho/9128-2024-876110755 

Bibliografia:
Canário, R. (2005). O que é a Escola? Um “olhar” sociológico. Porto Editora.
Canário, R. (2006). A escola tem futuro? Das promessas às incertezas. Artmed.
Gala, M. (2024, agosto, 14). Projetos-piloto de inovação pedagógica. Secundário com nova disciplina “Literacias” a partir do próximo ano letivo. Diário de Notícias.

 

Artigo publicado pelo Link to Leaders a 07/06/2025.

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