Cidadãs de segunda classe

Jan 5, 2026

Entramos em 2026 com o ritual habitual da esperança. A ideia confortável de que, só por virar o calendário, seremos melhores. Mais lúcidos. Mais justos. Mais responsáveis.
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Aprendi, através do meu percurso profissional, que a esperança, sozinha, não move Organizações nem Sociedades. O que move é a escolha. E a coragem.

Num mundo instável, feito de avanços frágeis e recuos perigosos, os Valores de Abril não são uma memória histórica. São um teste diário. Democracia não é um dado adquirido, é uma prática exigente, sobretudo quando nos aproximamos de decisões estruturantes, como a escolha do próximo Presidente da República, já no dia 18. E convém dizê-lo sem rodeios: a forma como escolhemos diz muito sobre aquilo que toleramos e o que queremos vir a ser. Devemos questionar-nos sobre tudo e todos. Não nos deixemos cair em fundamentalismos e absolutismos inalienáveis.

Olhar para trás não é uma nostalgia. É uma responsabilidade de todas e todos. Os Direitos que hoje parecem óbvios foram conquistas difíceis. E, no caso das mulheres, foram Vitórias sempre, extremamente, incompletas. Falo como Mulher, como Líder e como Cidadã que se recusa a aceitar a ideia de progresso, no sentido literal, de temporal. Mas quando chegamos a este progresso? Onde está o cume? É que ainda não chegámos lá!

Há pouco tempo deparei-me com informação de que sobre o novo Código de Estatuto Pessoal no Iraque, que transforma mulheres em, diz-se: “cidadãs de segunda”. Não é força de expressão. Um homem pode divorciar-se sem informar a mulher. Pode retirar-lhe a custódia dos filhos quando estes completarem os sete anos de idade. Tudo isso legitimado por uma alteração legal que abre um precedente grave no que toca aos Direitos das Mulheres.

É aqui que a distância geográfica deixa de servir de desculpa. Porque gostamos de apontar o dedo para fora, mas evitamos o espelho. Evitamos a auto reflexão e a autocrítica. Mas não se preocupem que este é um problema estrutural das Sociedades Modernas que são mais centradas no “eu” e menos no “nós”.

Portugal também tem um passado em que a lei empurrava a mulher para casa, para o silêncio, para a dependência. Esse passado não está assim tão distante. E, em muitos aspectos, ainda não passou. Há mulheres que o vivem no presente, pois até hoje não tiveram a oportunidade de conhecer uma outra realidade, ou ainda ninguém lhes disse que há “um mundo de oportunidades lá fora”. Oportunidades, uma palavra que tanto nos deve dizer e à qual devemos somar sempre Igualdade.

Continuamos a ser cidadãs de segunda: nos salários. Nas oportunidades. No acesso aos cargos de decisão. Mesmo num país com elevada participação feminina no mercado de trabalho, uma em cada cinco mulheres continua presa a contratos temporários. Os dados mais citados apontam para uma diferença salarial média de cerca de 16%, com impactos ainda mais duros nos cargos de topo, onde a desigualdade se agrava.

Nas empresas, a conversa sobre mérito serve muitas vezes para esconder o conforto. Menos mulheres em cargos seniores não é um mero acaso, é uma escolha acumulada e que perdura anos e anos. Portugal surge consistentemente mal posicionado quando comparado com outros países europeus no que toca à Liderança Feminina. E isto deveria envergonhar-nos mais do que nos resigna.

O paradoxo é evidente. As mulheres abandonam menos a escola, diplomam-se mais, investem mais na sua qualificação. E questiono-vos agora: de que serve o talento se a porta continua entreaberta apenas para alguns? Se apenas alguns podem aceder à recompensa pelo esforço do seu trabalho? E as outras? Continuam a lutar, diariamente, para que consigam alcançar a igualdade? Será a meritocracia apenas uma palavra e um conceito para alguns?

Enquanto CEO, sei que nenhuma Organização sobrevive se desperdiçar metade da sua inteligência. Enquanto Cidadã, sei que nenhuma Democracia se pode chamar plena quando normaliza a desigualdade. Não, não somos cidadãs de segunda por natureza. Tornamo-nos cidadãs de segunda quando aceitamos Sistemas Políticos que nos tratam como tal.

No dia 18 não é apenas uma data eleitoral. É um momento de escolha política e simbólica. Escolher quem representa o País é também escolher que Direitos defendemos, que desigualdades toleramos e que Futuro estamos dispostos a construir.

Desejo que 2026 não seja apenas mais um ano com boas intenções. Espero que seja um ano de decisões firmes e que as mulheres continuem a ser os motores das Sociedade, mesmo quando o Caminho parece inclinar-se contra elas. Porque uma Sociedade mais Justa, mais Coesa e mais Igualitária não é um favor concedido. É uma Exigência Democrática.

Bibliografia:
Pordata. (2025). Pordata retrata o perfil da mulher em Portugal. Fundação Francisco Manuel dos Santos. Disponível aqui.

Human Rights Watch. (2025, 15 de outubro). Iraq: New Personal Status Code Makes Women Second Class. Disponível aqui.

Artigo publicado pelo Link to Leaders a 05/01/2026

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