Direito das Mulheres – Quo Vadis? Violar os direitos das mulheres é violar os direitos humanos

Dez 1, 2025

A expressão ‘quo vadis’ significa “para onde vais?”. É precisamente essa pergunta que, enquanto Mulher, líder e defensora assumida dos Direitos das Mulheres, sinto obrigação de expor ao mundo para que todas e todos possamos refletir.
TC_Teresa Damasio-120

Para onde estamos a ir enquanto Humanidade quando continuamos, dia após dia, a assistir à violação brutal e sistemática dos Direitos Fundamentais das Mulheres e dos seus Direitos Humanos? Ou será que em algumas partes do mundo ainda não é reconhecida esta condição às Mulheres?

No mês passado, fui confrontada com uma notícia que me deixou absolutamente devastada. Um recém-nascido enterrado vivo na Índia por uma única condição: ser Mulher. Esta é uma realidade dura e inaceitável que assistimos na sociedade contemporânea.

A Índia é um país onde, em muitas regiões, persistem estruturas patriarcais profundamente enraizadas. Onde o valor de uma criança é medido pelo seu sexo e onde ser menina continua a ser considerado um fardo para muitas famílias como resultado de rituais que fazem ter de despender bens, terras, valores monetários das famílias para outras que tenham rapazes. Normas sociais antiquadas, preconceitos violentos e dinâmicas de poder ultrapassadas empurram milhares de raparigas, todos os anos, para o abandono, para a violência e, demasiadas vezes, para a morte.

Esta bebé com apenas 15 dias foi encontrada embrulhada numa toalha, enterrada a 30 centímetros da terra. Estava viva. Lutava pela vida. O mundo acreditou que poderia resistir, mas infelizmente não aconteceu. É mais uma vítima da sociedade. É mais uma vítima do preconceito. É mais uma vítima por ser considerada minoritária, simplesmente porque nasceu Mulher. Porque tinha uma condição física, a sindactilia (1), vista pela sociedade como uma imperfeição e que não é tolerável, neste caso, na localidade onde nasceu cuja população vive no meio rural e maioritariamente subsiste da agricultura, com normas sociais e valores do passado.

A verdade é que com esta notícia fica comprovado que ainda para algumas sociedades a vida de uma mulher vale menos do que a de um homem.

Este não é um caso isolado. São muitos. São demasiados. Numa reportagem da BBC, uma mulher Dalit (2) diz: “Somos vítimas de violência porque somos mulheres, pobres e de casta inferior… Ninguém pode falar por nós” (Biswas, 2020).

Estas palavras ecoam como um grito que o mundo insiste em não ouvir. Um grito de revolta e ao mesmo tempo de inércia pela ausência de apoio por parte das entidades supranacionais.

De facto, outra notícia relatava a violação brutal de uma jovem Dalit de 19 anos por homens de casta superior. Ainda hoje me questiono: como é possível que isto continue a acontecer?

Assim, volto à pergunta essencial: ‘quo vadis’? Para onde vamos, se aceitarmos que meninas são enterradas, que mulheres são violadas, que mães são forçadas a abortar em condições desumanas porque não tiveram “a sorte” de gerar um filho homem? Para onde vamos, se continuamos a normalizar uma violência que mata, silencia e apaga vidas antes mesmo de começarem? O que fazemos quando perante os nossos olhos isto acontece?

As Nações Unidas referem que, só em 2020, a Índia tinha 45,8 milhões de “mulheres desaparecidas”. Quase 46 milhões de vidas apagadas por preconceitos culturais, discriminação sistemática e violência estrutural. 46 milhões. O peso deste número devia envergonhar qualquer sociedade.

Como mulher, como CEO, como feminista assumida, não posso, nem quero, ficar calada. Porque sei que o silêncio é cúmplice. Porque sei que cada história como esta nos deve empurrar para a ação. Nenhum país é verdadeiramente desenvolvido enquanto as mulheres continuarem a ser descartadas como se não tivessem valor. Como se fossem seres menores.

Termino com uma frase de Malala Yousafzai, que carrego comigo como compromisso diário: “Eu levanto a minha voz, não para que eu possa gritar, mas para que aqueles sem voz possam ser ouvidos. Não é possível prosperar quando metade das pessoas fica para trás.” Não deixemos ninguém para trás.

É exatamente isso de que devemos nos lembrar: Nenhuma mulher deve ficar para trás. Nenhuma menina deve ser escondida ou enterrada, nem literalmente, nem simbolicamente por uma sociedade que insiste em não reconhecer-lhe o devido valor.

Volto ao tema central deste artigo: ‘Quo vadis, mundo’? A resposta depende de nós, a resposta depende de ti!

Hillary Clinton proferiu na Conferência de Pequim: “Os Direitos Humanos são Direitos das Mulheres, e os Direitos das Mulheres são Direitos Humanos”. Subscrevo concomitantemente esta expressão!

(1) A sindactilia é uma condição que acontece quando um ou mais dedos, das mãos ou dos pés, nascem juntos. Esta alteração pode ser provocada por alterações genéticas e hereditárias, que ocorrem durante o desenvolvimento do bebé na gravidez.

(2) O termo dálite (dalit) foi utilizado pela primeira vez nos finais do século XIX pelo ativista Jyotirao Phule para designar, o que no sistema de castas na Índia, são os “xudras”, grupo formado por trabalhadores braçais, considerados pelos escritos bramânicos, como “intocáveis” e impuros. O termo tem uma conotação de opressão e é essencialmente usado pelos ativistas e pelos media por ser considerado o mais adequado quando se fala do sistema de castas na Índia. Wikipédia. Dálite. In: Wikipédia, a enciclopédia livre. (acessado a 19 nov. 2025).

Referências bibliográficas:

Biswas, S. (2020, 7 de outubro). As mulheres Dalit que lutam contra estupros, pobreza e preconceito na Índia. BBC News Brasil.
Iyer A., Mogul R. & Rao D., (2025, 2 de novembro). Um recém-nascido foi enterrado vivo na Índia. O motivo pode ter sido o seu sexo. CNN Portugal.

Artigo publicado pelo Link to Leaders a 01/12/2025

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