Poder, Género e Silêncio: o que nos revela o caso de Epstein

Mar 7, 2026

Muito recentemente escrevi sobre o poder persistente do patriarcado e sobre a forma como essa estrutura molda, de modo subtil e profundo, a vida de cada um de nós e a própria organização das sociedades.

Volto a este tema após a leitura de um artigo publicado no The Guardian Weekly (2026), intitulado “The Men’s Club”, que analisa os chamados ficheiros de Jeffrey Epstein. Independentemente da veracidade factual de cada documento ou da autenticidade de cada elemento divulgado, não tendo qualquer conhecimento técnico ou factual sobre o tema, o que emerge com clareza é algo mais estrutural do que circunstancial. Estes ficheiros tornaram-se um espelho perturbador da forma como o poder masculino continua a operar e a reproduzir-se.

Entre os milhões de documentos, imagens e vídeos alegadamente associados ao caso, surgem nomes de homens com enorme influência política, económica e social. O ponto central, porém, não reside na enumeração de nomes, mas no padrão que estes representam. Um padrão de poder concentrado e protegido por redes de influência que se reforçam mutuamente e que deixam de fora uma grande parte da sociedade, os grupos mais desfavorecidos e minoritários, entre eles, as mulheres, que são referenciadas por diversas vezes, não pelos melhores motivos.

Aquilo que mais inquieta não é apenas o conteúdo específico dos ficheiros, mas o retrato cultural que deles emerge. A linguagem utilizada, as referências às mulheres e a forma como estas surgem descritas revelam uma lógica de objetificação profundamente enraizada. Quando as mulheres são discutidas em termos de aparência física, disponibilidade ou adequação estética, como se fossem extensões do estatuto masculino ou instrumentos de validação social, aquilo que se observa não é um desvio isolado, mas a manifestação de uma mentalidade sistémica. A própria referência recorrente a modelos da Victoria’s Secret não é inocente. Representa uma visão da mulher enquanto símbolo, enquanto objeto de consumo social e sexual.

Esta triste realidade obriga-nos a confrontar uma questão incómoda. O patriarcado não sobrevive apenas através de leis ou instituições formais. Sobrevive, sobretudo, através da normalização cultural. Sobrevive porque muitos continuam a vê-lo como inevitável, como natural, como consequência lógica de uma ordem social que nunca é verdadeiramente questionada.

A socióloga Christine Delphy1 alertou precisamente para este perigo ao afirmar que nenhuma instituição persiste apenas por ter existido no passado, conforme muitos teóricos tentam alegar. A sua continuidade exige legitimação constante, ainda que silenciosa. Essa legitimação ocorre quando as estruturas de poder se tornam invisíveis, quando deixam de ser interrogadas, quando passam a ser confundidas com a própria ordem natural das coisas.

Ao longo de décadas, muitos discursos académicos procuraram explicar o patriarcado como sendo inevitável, quase como uma consequência biológica ou evolutiva, tendo o homem mais força do que a mulher. O domínio masculino não constitui uma inevitabilidade histórica, mas uma construção social que se consolidou através de processos e de influências da esfera política, económica e cultural.

Ainda recentemente, uma declaração pública de Donald Trump, proferida na presença do Presidente do Paraguai, Santiago Peña, ilustrou a persistência de uma visão que reduz as mulheres à sua dimensão estética e relacional. Mais do que uma frase isolada, trata-se de um reflexo de uma mentalidade que continua a atribuir valor às mulheres em função da forma como servem ou agradam ao olhar masculino.

Os ficheiros associados a Epstein devem, por isso, ser analisados para além da dimensão criminal ou judicial. Devem ser entendidos como documentos de ordem cultural. Revelam não apenas ações individuais, mas padrões estruturais societais. Mostram como o poder se organiza, como se protege e como perpétua uma visão hierárquica do mundo onde os homens dominam e as mulheres orbitam em torno desse poder.

O verdadeiro perigo do patriarcado não reside apenas na sua existência, mas na sua invisibilidade. Na sua capacidade de se apresentar como normal. Casos como este, independentemente do seu desfecho judicial, criam uma oportunidade rara. Uma oportunidade para refletir. Para questionar. Para recusar aceitar como inevitável aquilo que é, na verdade, uma construção histórica e social.


1
 Sociólogo Francesa e investigadora do CNRS, no âmbito dos estudos feministas e de género, sendo responsável pelo lançamento de uma revista que introduz o conceito de género e a corrente intelectual do feminismo materialista.

Bibliografia:
Gentleman, A. (2026, 13 de fevereiro). A World of men and power. The Guardian Weekly.
Saini, A. (2023, 05 junho). O Mundo é dos homens? Não segundo a biologia ou a história. National Geographic Portugal. Disponível aqui.

Artigo publicado pelo Link to Leaders a 02/03/2026

 

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